Em abril de 2026, a vice-reitora da Universidade de Aveiro (Instituiçao de Portugal), Sandra Soares, apresentou um diagnóstico sobre o uso de IA generativa no ensino superior com uma frase que merecia circular em todo colegiado de curso brasileiro: testes e trabalhos escritos, hoje, podem ser resolvidos “em poucos minutos, ou até segundos” por um chatbot — e continuar avaliando por esse caminho significa formar estudantes que não desenvolveram as competências prometidas pelo currículo. O alerta consta do relatório do Conselho Nacional para a Inovação Pedagógica no Ensino Superior, apresentado em Tomar.

A questão incômoda que o relatório coloca é simples: se a IA resolve a prova em 30 segundos, o que exatamente o curso está avaliando? A memorização dissolveu-se como ativo pedagógico. O texto dissertativo, isolado, virou prova de proficiência com o ChatGPT, não com o conteúdo. O TCC, quando não ancorado em processo acompanhado de perto, carrega o mesmo risco. E no entanto a maior parte das IES brasileiras segue avaliando produto final — entregas pontuais que o estudante leva para casa e devolve na semana seguinte, exatamente o formato que a IA generativa automatiza melhor.

O problema, é importante dizer, não começou com o ChatGPT. As limitações da avaliação centrada no produto já eram conhecidas há décadas. O que a IA generativa fez foi tornar o problema inadiável — e abrir, no mesmo movimento, uma janela para reposicionar metodologias ativas que avaliam processo há muito tempo.

O que o mercado está pedindo não é conteúdo, é decisão

Há um descompasso conhecido entre o que as IES entregam e o que as empresas procuram. O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, ouviu mais de mil empregadores em 55 países e cravou: pensamento analítico é a competência central mais citada, presente na lista de essenciais de sete em cada dez empresas. Logo abaixo aparecem resiliência e flexibilidade, liderança e influência social, pensamento criativo e autoconsciência. Pensamento sistêmico aparece com destaque nas competências em ascensão até 2030.

Nenhuma dessas competências é ensinada por transmissão. Nenhuma é aferida por prova de múltipla escolha. Todas se manifestam, e se desenvolvem, na condição em que alguém precisa decidir com informação incompleta, suportar a consequência da decisão e revisar a rota. Essa condição não cabe em uma avaliação escrita individual com prazo de sete dias.

O relatório do CNIPES português fecha o raciocínio na mesma direção. Sandra Soares propõe um modelo em que o docente passa a ser “arquiteto de aprendizagem” e mentor, com avaliação centrada no processo e não no produto final. É um reposicionamento, não uma reinvenção — a pedagogia experiencial descreve isso desde os anos 1980, com Kolb. O que mudou é a urgência.

A regulação brasileira também está se mexendo

Quem acompanha o ensino superior sabe que o Decreto nº 12.456/2025 e a Portaria MEC nº 506/2025 reestruturaram a oferta de EAD, mas o aspecto menos comentado dessas normas é justamente o que mais importa para o debate sobre avaliação: a obrigatoriedade de avaliações presenciais com peso na nota final, a exigência de mediadores pedagógicos com responsabilidade ativa sobre o acompanhamento e a reafirmação dos referenciais de qualidade para os processos de ensino-aprendizagem.

Em outras palavras, o MEC empurrou no mesmo sentido em que a IA generativa empurrou: aumentar o peso de momentos em que o estudante demonstra o que sabe com acompanhamento real, não apenas entrega produtos à distância. Para as IES com forte presença em EAD e híbrido, o tensionamento é duplo — avaliar com rigor em escala, sem voltar a ser refém da prova escrita tradicional, que a IA também resolve.

A resposta não vai vir de mais uma prova presencial ao final do semestre. Vai vir da reengenharia do que significa “avaliar” dentro da disciplina.

Por que jogos de empresas resolvem, em parte, essa equação

Há uma categoria de atividade pedagógica que já nasceu avaliando processo: os jogos de empresas, ou business games. Em um simulador de negócios aplicado a Administração, Contabilidade ou Engenharia de Produção, equipes de 3 a 5 estudantes assumem a gestão de uma empresa virtual e tomam decisões em rodadas sucessivas — preço, produção, marketing, finanças, RH. Cada rodada processa as decisões de todas as equipes simultaneamente, gerando um mercado dinâmico em que o resultado de cada time depende das escolhas dos concorrentes.

Isso muda tudo do ponto de vista avaliativo, por três razões concretas:

1. O produto final não é replicável por IA. Um ChatGPT até pode sugerir preços para uma empresa fictícia em abstrato, mas não conhece o estado do mercado simulado — que é construído, turno a turno, pelas decisões reais das outras equipes da mesma turma. Cada rodada é uma situação única. A IA pode ajudar a estudante a analisar um relatório; não pode substituir a decisão sob incerteza no contexto específico.

2. O que importa é o caminho, não o número final. O professor-mediador acompanha como a equipe interpreta o Balanço e a DRE, como negocia internamente sob pressão, como revisa a estratégia depois de uma rodada ruim, como integra áreas funcionais. Isso é visão sistêmica, tomada de decisão sob incerteza e trabalho em equipe sendo desenvolvidos e avaliados no mesmo ato. É learning by doing no sentido literal.

3. A avaliação é longitudinal. Em vez de um ponto único de medição (a prova), a turma vive 6, 8 ou 12 rodadas. O desempenho acumulado revela padrões de aprendizagem — melhora no uso de relatórios gerenciais, sofisticação crescente da análise de cenários, amadurecimento na dinâmica de equipe. Processo, portanto, não produto.

Nada disso é especulação teórica. Em 18 anos operando jogos de empresas com mais de 25 mil estudantes por ano em 250+ IES, vemos o mesmo padrão se repetir: a turma que começa decidindo no “feeling” e termina construindo análise de cenários com base em relatórios financeiros não aprendeu a fazer isso na aula expositiva — aprendeu decidindo, errando e revisando.

O que muda na prática para coordenadores e professores

Incorporar metodologias de avaliação de processo não significa abandonar o que funciona. Provas, seminários e trabalhos ainda têm lugar — em dose menor, e com propósito mais focado. Três ajustes práticos costumam fazer a diferença:

Tornar explícita a rubrica de processo. Se o curso diz desenvolver visão sistêmica e tomada de decisão, a avaliação precisa incluir observação estruturada desses comportamentos em situação. Isso exige do professor um instrumento — uma rubrica, um diário de campo, uma rodada de feedback formativo — e não apenas a nota final.

Reduzir entregas que a IA resolve sozinha. Trabalho dissertativo individual sobre tema genérico virou commodity. Substitui-se, em parte, por atividades em que o estudante precisa defender a decisão dentro de um contexto específico, preferencialmente ao vivo, respondendo a questionamentos.

Integrar disciplinas em torno de um caso vivo. Um simulador empresarial aplicado transversalmente em Administração, por exemplo, permite que Finanças avalie a decisão financeira da equipe, Marketing avalie o mix, Produção avalie a capacidade — todos sobre os mesmos dados, com a mesma equipe. O estudante deixa de ser avaliado disciplina por disciplina em abstrato e passa a ser avaliado em integração, que é como o mundo cobra.

O problema não é a IA. É continuar avaliando como se ela não existisse

Vale repetir: a crise da avaliação tradicional não foi criada pela IA generativa. Foi revelada por ela. Coordenadores que ainda olham o ChatGPT como ameaça a ser combatida perdem o ponto — a ameaça real é formar estudantes que passam no curso sem desenvolver as competências que o mercado e a legislação cobram.

A boa notícia é que os instrumentos para enfrentar essa questão já existem e estão maduros. Metodologias ativas, avaliação por competências, aprendizagem experiencial, jogos de empresas — nenhum desses conceitos é novidade. O que mudou foi a urgência de colocá-los no centro do projeto pedagógico em vez de deixá-los como experimentação periférica.

Para aprofundar como os jogos de empresas podem atuar como eixo de avaliação de processo no seu curso — e como integrar disciplinas em torno de um mesmo cenário simulado — conheça o simulador da Simulare ou converse com nosso time sobre aplicações em cursos de Administração, Contabilidade, Economia e Engenharia de Produção.

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